| Adriana Calcanhotto cai no samba à sua própria maneira |
| Qui, 17 de Março de 2011 17:29 |
Na faixa que encerra o CD "O micróbio do samba" (Sony), novo de Adriana Calcanhotto, a mulher anuncia para seu parceiro: "Agora tá na minha hora/ Eu vou passar uns tempos em Mangueira." E vai, deixando a geladeira cheia e sem promessa de voltar depois do carnaval, lembrando que tratou com jeitinho da onipotência dele (e "das chegadas de madrugada no sapatinho") enquanto estiveram juntos.Em seu décimo disco - contando os dois da Partimpim -, a compositora faz o mesmo movimento, tão tranquilo quanto radical, tão despretensiosamente natural quanto potente em sua originalidade. São 12 canções que passeiam pelo universo poético e rítmico do samba, mas que, na poesia e no ritmo, apresentam um deslocamento em relação ao que se entende convencionalmente como samba clássico. A artista fala em inversões - presente e passado, familiar e estranho ao samba, e, sobretudo, as perspectivas masculina e feminina - ao abordar esse deslocamento: - Luiz Zerbini (que assina a arte do CD com Fernanda Villa-Lobos) ouviu algumas faixas e comentou: "Bacana, samba de mulher" - conta Calcanhotto. - O CD continuou tocando e, quando Zerbini ouviu "Mais perfumado" (no qual a mulher descreve um clássico homem traidor, que alterna vacilos e desmedidas gentilezas, antes de concluir: "Ele acredita que me engano/ Pensa que sabe mentir o homem que eu amo"), ele brincou: "Estou com medo." O "medo" masculino de Zerbini ilumina um tanto da alma do CD. O disco está coalhado de sutis surpresas, muitas nascidas dessa inversão para a perspectiva feminina. Em "Mais perfumado", por exemplo, a escolha de "me engano" em vez de "me engana" no verso citado revela algo maior que a busca da rima. Um olhar de mulher de hoje. - Sambas como "Beijo sem" ("Madrugada, sou da lira/ Manhãzinha, de ninguém", lançado por Teresa Cristina) e "Tá na minha hora" não seriam possíveis antes, porque as coisas não eram assim. Quem tinha o micróbio do samba era o homem. Se a mulher tivesse, era a vadia - diz Calcanhotto, que lembra outras compositoras de samba, de sua geração e pioneiras, como Chiquinha Gonzaga e Dona Ivone Lara: - Que não é uma mulher qualquer, é uma mulher que compõe samba-enredo! Fonte: moglobo.globo.com |

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